quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Viagem pela vida real

Pela janela do ônibus vejo a vida nascer e passar lá fora
Sempre gostei de ouvir histórias, mas confesso, com tristeza, que nos últimos tempos tenho tido poucas oportunidades para isso. E quando as oportunidades se apresentam, muitas vezes deixo passar por cansaço ou desinteresse. Em uma das minhas últimas viagens de ônibus, mal sentei na poltrona e já queria me isolar, ouvindo música, vendo o mundo pela janela, pensando na vida e, com sorte, até cochilando. Missão quase impossível quando uma senhora falante e expansiva se sentou ao meu lado.

Nem tão senhora assim, lá pelos 50 anos, minha companheira de viagem mal se acomodou no banco e já iniciou sua conversa. Imediatamente adotei minha tática de sorrir - para não parecer antipática - e virar para o lado, indicando que queria sossego. Mas aí me dei conta de que aquela conversa certamente traria mais benefícios para mim do que para ela. Era uma excelente distração para enfrentar as 4 horas e meia de viagem. E então, pensei: por que não fazer diferente dessa vez e ouvir?

Não precisei de muito para puxar papo. Minha vizinha de poltrona logo começou a emendar um causo no outro e, ao fim, saí com uma inspiração gigantesca anotada no meu "caderninho da vida". Ela me contou que, após perder o marido, alguns anos atrás, se viu sozinha, com dois filhos para sustentar e muitas decisões a tomar. Mesmo formada, nunca tinha exercido profissão, sempre havia sido dona de casa. Mas decidiu colocar os livros embaixo do braço e investir em uma atualização. A pós-graduação em serviço social logo a conduziu ao posto de assistente social do estado de São Paulo.

Foi contando, com uma energia incrível, como era emocionante acompanhar e ser homenageada nas formaturas de crianças e adolescentes "problemáticos", considerados casos perdidos, mas que ela ajudou a "resgatar e colocar no trilho certo". Contou, também, com uma sensação de impotência, os muitos casos em que ela não conseguiu ajudar famílias que precisavam de muito apoio, em situações extremas de pobreza e desespero. E os olhos brilhavam, ao mesmo tempo de vontade e desilusão, ao falar das palestras que organiza sobre métodos contraceptivos e saúde da mulher, em uma tentativa louvável de diminuir os problemas sociais causados por gravidezes precoces e doenças sexualmente transmissíveis.

Desci do ônibus com um nó na garganta, sentindo-me culpada por ver o quanto há a ser feito e o quão pouco eu tenho contribuído. Mas também saí com o coração cheio por essa história de dedicação, por saber que ainda há muita gente que tenta e luta. Acumulei, naquelas pouco mais de quatro horas, muitas lições e um questionamento que não me deixou mais, desde então: estamos cada vez mais fechados em nós mesmos? Mas e a onda de solidariedade e coletividade que se propaga pelas redes sociais? É real? Ou só nos deixa discutindo as coisas no âmbito digital? Nos faz realmente ouvir e sentir como o outro, preocupados em melhorar sua situação, cultivando empatia? Ou só nos faz destilar opiniões extremadas e raivosas, sem querer ouvir ou agir?

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A saúde da cidade

Ontem fui a um evento sensacional, o Inspira SP. Com palestrantes de diversas áreas, os principais temas abordados foram sustentabilidade e saúde (a nossa e a da cidade). Fiquei encantada com as iniciativas e histórias inspiradoras sobre como cuidar melhor de nós e do lugar em que moramos. Saí de lá realmente inspirada, porque acredito - e muito - que nossa saúde está diretamente ligada ao ambiente em que vivemos.

Foto do Parque Villa Lobos, um dos "presentes" que São Paulo me deu e que
permite às pessoas aproveitarem a cidade com saúde. Imagem tirada do site
do próprio parque 
Quando mudei para São Paulo, minha mãe, preocupada, disse: "Minha filha, a qualidade de vida lá é muito pior". E sim, essa era a impressão que tinha até vir morar aqui: a de uma vida corrida, agitada e enclausurada em uma cidade cinza. Mas, desde que cheguei, encontrei vários "presentes" para a minha saúde e qualidade de vida: os vários parques, onde adoro caminhar; a ciclovia que me permite deslocar para vários lugares de uma maneira saudável, econômica e ambientalmente correta; o transporte público, que me leva até onde preciso sem me estressar com o trânsito e admirando a cidade, pois também estimula caminhadas; as opções de lazer, gastronomia e cultura, acessíveis a todos e muitas vezes em espaços abertos, estimulando a convivência com a cidade e com as pessoas.

É verdade que ainda falta muito para tudo isso chegar a todos os moradores dessa cidade gigantesca, que os governantes e as pessoas ainda precisam mudar de consciência e sair da clausura dos apartamentos para aproveitar os espaços públicos e comuns, que ainda falta muito para alcançar uma mobilidade que atenda a toda a população, mas são iniciativas como as que ouvi ontem que nos inspiram e movem rumo a uma cidade mais saudável, mais bem utilizada e - por quê não? - mais gentil. Para isso, a (inspir)ação precisa partir de cada um!

Uptade: Recebi o vídeo de uma das palestras mais motivadoras do Inspira SP. Vale a pena dedicar alguns minutinhos!


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Arte para todos (os gostos)

"Guernica", a obra de arte mais conhecida de Picasso, em foto deste link
Confesso que, apesar de muitas vezes me assustar com a intensidade de São Paulo, não tem como não agradecer as possibilidades que essa cidade oferece. Hoje fui visitar a mostra "Picasso e a modernidade espanhola", que vai até 8 de junho, no Centro Cultural Banco do Brasil. A exposição tem entrada gratuita e fica ali, bem pertinho do metrô, ao alcance de todos. Tudo bem que é necessário enfrentar uma hora ou mais de fila, mas é só ter paciência para conseguir se maravilhar com esboços, quadros, esculturas e projeções de Pablo Picasso e outros importantes artistas espanhóis, como Salvador Dalí e Joan Miró. Voltando para casa, refleti sobre como o centro da cidade oferece opções de "arte" para todos os gostos. Dos artistas de rua tocando salsas e valsas a uma feirinha gastronômica logo ali, em frente a importantes marcos arquitetônicos da cidade, tem um pouco de tudo. Basta apurar a vista, os ouvidos, o nariz e a boca para se inundar com belezas e gostos diversos.

O artista trabalhando em sua obra-prima, em foto deste link
E sobre a exposição, fiquei maravilhada com o processo de criação de "Guernica", umas das obras mais famosas de Picasso. Impressionam os esboços, a referência (da guerra civil que devastou a cidade de Guernica) e como o pintor consegue traduzir em uma visão particular e com traços únicos todo o caos que marcou a Espanha na época. Ficou só a vontade de ver um dia, ao vivo, esta arte em tela.

terça-feira, 31 de março de 2015

Dançar conforme o ritmo

Imagem deste site. E para quem tiver interesse, já fica a dica das aulas grátis!rs
Hoje arrisquei uma aula de dança de salão. Cheguei tímida e me sentindo meio deslocada, no meio de vários casais de idosos simpáticos e pés-de-valsa. E saí de lá com aprendizados que foram além do "um-dois-três" dos passos básicos do samba de gafieira. "É preciso ter calma, saber escutar e acompanhar o ritmo, sem pressa e sem querer conduzir o tempo todo", ensinou-me um paciente senhor, enquanto eu insistia em massacrar seus pés. Mal sabe ele o quanto aquela lição foi importante.