Estava diante de uma decisão. Mais um passo e mudaria meu rumo. Pode soar dramático, mas era apenas uma escolha do melhor jeito de voltar para casa. Ou ficava ali e pegava o ônibus de sempre, encarando a espera e o trânsito - além, é claro, do preço alto da passagem que desencadeou um movimento sem igual na minha nova cidade - ou caminhava para casa. As vantagens da segunda opção eram muitas: garantia de exercício, de rapidez e de gratuidade. A distância era pouca, o tempo favorável e o horário, ainda cedo. Por que, então, eu resistia em decidir por aquela que parecia a melhor opção? Antes fosse pela preguiça, mas não. O que me fazia relutar não era, tampouco, a violência dos assaltos que, infelizmente, são uma realidade em São Paulo. Constatei, triste, que o meu medo residia ironicamente em um fator que era motivo de orgulho e temor ao mesmo tempo: sou mulher. E, como toda mulher, enfrento o medo da violência sexual, dos "perigos" que representam meu corpo e sua suposta fragilidade. Basta qualquer rua mais escura ou se encontrar sozinha diante de um estranho que nos salta aquela palavra perigosa e aterrorizante: estupro.
 |
| Luta diária para superar a violência contra a mulher. Imagem deste blog. |
Decidi vir a pé, mesmo assim. Não queria me sujeitar a uma limitação pela qual eu passara recentemente a lutar contra, ainda que mentalmente, que era a opressão (qualquer forma dela) da mulher. E, com a confiança de que as coisas estão mudando e que eu deveria contribuir diariamente para essa mudança, vim caminhando pelos quase 4 km que separam trabalho e casa. É verdade que me sobressaltei nas ruas mais desertas, nos trechos mais escuros e que passei por um episódio que pôs a prova minha coragem e paciência. Quase chegando em casa, em uma avenida mais movimentada e bem iluminada, avisto um grupinho de meninos arruaceiros alguns quarteirões a frente. Caminhavam devagar fazendo barulho e rindo alto. Alguns deles olharam para trás e, ao me ver, deram sorrisinhos cínicos e intimidadores, além de soltar alguns gracejos. Queriam marcar seu "poder masculino", senti. Aí, me assaltou a dúvida: continuo andando no meu ritmo e os alcanço, diminuo o passo ou mudo de calçada? "Não, hoje é um dia de mostrar minha força", pensei. Apressei e tornei mais firmes meus passos. Passei bem pelo meio deles com a expressão séria e determinada e, para minha surpresa, pareci os intimidar, já que adotaram uma postura bem menos agressiva. Nem olhares me dirigiram.
Caminhei mais um pouco e sorri, satisfeita, daquela pequena vitória particular. Parece bobo, parece pouco, mas para mim foi muito. Mesmo morando na maior cidade do país, onde a diversidade de pessoas parece conduzir a um pensamento mais aberto, mais tolerante, ainda enfrentamos diariamente questões que nos mostram a necessidade de lutar pela igualdade, pelo controle e liberdade do nosso corpo e jeito de agir. Decidi que não quero ser escrava dessa condição "feminina". Quero fazer dela minha força. Sei que essa foi uma conquista recente, e não digo para a humanidade, mas para mim mesma. A luta contra preconceitos e posturas machistas começa internamente. Agora sei que ainda há muito que preciso mudar, mas isso é assunto para outro post...