quinta-feira, 27 de junho de 2013

Lugar exclusivo

Hoje li uma notícia que me deixou dividida. Portais informavam que foi aprovado pela Comissão do Transporte de SP um projeto de lei que prevê a criação de vagões de metrô e trem, além de assentos em ônibus, exclusivos para mulheres. O objetivo, segundo consta, é "coibir oportunidades de assédio sexual" às usuárias do transporte coletivo. Ou seja: dar mais segurança para que a gente viaje sem ninguém encostando/bulinando. Pelo que li por aí, na internet, isso já é feito no metrô e no trem no Rio, em horários de pico - embora não haja fiscalização nem respeito - e foi aprovado também para o metrô de Brasília, onde deve começar a vigorar a partir de 1º de julho.

Foto daqui

Até agora não consegui me decidir se aprovo ou não a iniciativa. Confesso que muitas vezes me senti desrespeitada e até mesmo agredida com comportamentos masculinos "inadequados". Tanto que proteger o corpo é uma das minhas principais preocupações em viagens de ônibus (e não só dentro da cidade, mas também em viagens entre municípios, principalmente as que transcorrem durante a noite - dormindo, como me proteger?). E acredito que seja assim com várias outras mulheres. Nesse ponto, assino embaixo da proposta e acho que ela nos dá mais liberdade e segurança.

No entanto, também acho que é uma restrição à liberdade. Explico: na medida em que mostra que é necessário segregar homens e mulheres para evitar assédio sexual, o projeto de lei acaba com as pretensões de igualdade. Coloca a mulher em um lugar de fragilidade, de quem precisa ser protegida dos homens, estar em um local separado. E só hoje, pensando sobre a proposta, parei para pensar no caráter de exclusão da palavra exclusivo. Meu "instinto feminista" grita contra isso: queremos ter os mesmos direitos de ir e vir, nos mesmos espaços "permitidos" aos homens, sem "exclusividade". Só que, infelizmente, sei que para isso é necessária uma reeducação total da nossa sociedade machista. Exige esforços de conscientização que não acredito serem de curto ou médio prazo. E, por isso, aceito que medidas de prevenção ainda são, sim, necessárias. O que me resta é torcer para que, a longo prazo, possamos dar risadas dessa medida "conservadora" e segregacionista, em uma sociedade mais justa e, de fato, igualitária!

Para quem quiser ler mais, vi a notícia neste link.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A chuva é uma não gentileza urbana


Foto desse blog.


Preguiça de sair de casa. Vento e frio. Sapatos e barras de calças molhados. Sombrinhas disputando espaço com árvores e postes - e outras sombrinhas - na calçada. Carros a mais nas ruas. Ruas alagadas e esburacadas. Árvores caídas. Trânsito interrompido. Trânsito caótico. Ônibus cheios. Dia que já começa corrido. Preguiça de sair para almoçar. Dia escuro, parecendo já noite. Vontade da coberta e do aconchego, não permitidos até a volta pra casa, tarde da noite e ainda embaixo da chuva fina e persistente. Hoje descobri que a chuva é uma não gentileza para o caos urbano. Ou talvez esse seja só um pensamento de um dia cheio de nuvens cinzas, também no sentido não literal, de quem não teve tempo de parar para admirar a chuva cair e lavar tudo.

E assim vou dormir, esperando que o ritmo lento e constante da chuva embale meus sonhos, transformando o caos em calmaria.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Redes e (in)formação sociais

Nos últimos dias tenho tentado, mas não consigo me desligar das redes sociais. Acompanhar praticamente "ao vivo" o que acontece em várias cidades do Brasil virou parte da rotina. Nunca antes acessei com tanta frequência e interesse o Facebook. A ânsia de saber notícias me fez até voltar pra um quase esquecido (por mim) Twitter. E ali me comovi, torci, me indignei com cada lance narrado minuto a minuto, com a hashtag #protesto, entre outras. A cada segundo "surgiam" de 20 a 30 novos tweets. Uma loucura ininterrupta. Quase não conseguia me desligar.

Logo eu, tão pouco afeita ao mundo digital e cheia de preconceitos com quem vive conectado quase em tempo integral, me rendi a esses poderes e me vi com olhos e dedos frenéticos grudados no computador. Eu que sempre pregava a importância de "me desligar" da internet após a volta pra casa, não conseguia largar o notebook e o celular. Revi meus conceitos, mais uma vez. Continuo achando que o contato e a convivência (integral, sem ser dividida com olhos na tela) são essenciais, mas é inegável o poder das redes sociais de nos colocar em contato com opiniões dos mais variados tipos. Cabe a nós filtrá-las, mas cabe também aprender a ouvir outros lados e nos reinventar.

Isso tudo me fez repensar o papel dessas redes sociais. Me fez enxergar e comprovar ainda mais seu poder catalisador e disseminador. Na verdade, é um pensamento que tem me assaltado com certa frequência nos últimos meses. Senti na própria pele a importância desses canais de informação, mas também de formação. Ouvi argumentos diversos e me bandeei para vários lados, mudando meu apoio e modo de pensar a cada novo episódio. Às vezes me criticando por ser tão influenciável, mas na maior parte do tempo entendendo que essa maleabilidade faz parte da minha construção como ser humano, do processo de consolidação dos meus valores, argumentos e bandeiras.

E foi assim, aprendendo a "ouvir/ler", filtrar e incorporar, que abri a cabeça e mudei muito. Descobri a importância de me posicionar e defender, ainda que internamente, a princípio, a luta pela igualdade e contra a repressão e o preconceito, sejam por quais critérios for. Que assim seja daqui para frente .

domingo, 16 de junho de 2013

"Que Deus lhe pague"

Faz tempo que não escuto a expressão que dá título a este post. Mais do que uma frase de agradecimento, considero uma forma de demonstrar e valorizar a camaradagem e solidariedade humanas, já que geralmente se associa a atitudes gratuitas de ajuda. Hoje, confesso que só a encontro nos lábios dos mais antigos. Talvez porque o hábito de deixar o agradecimento pela ajuda de alguém nas mãos de outra "pessoa" (mesmo que ela seja Deus) já não seja mais comum. Queremos e precisamos de formas palpáveis e imediatas de "recompensa" por tudo. É raro (admito que até mesmo para mim), parar para ajudar alguém - sobretudo um desconhecido - sem pensar nas implicações disto para a rotina.

Muitos culpam a correria, outros a falta de segurança, mas acredito que essa forma de gentileza caiu em desuso porque estamos ocupados demais conosco mesmos. Somos, cada vez mais, impessoais. Não nos importa ou parecemos enxeridos - ou mesmo agressivos, em alguns casos - se paramos para ajudar alguém que não nos pediu nada. Não olhamos  mais para o outro, para os problemas dele (exceto quando expostos nas redes sociais, o que aí sim causa manifestações "sinceras" de apoio). Todos queremos aparentar ser fortes e independentes. Demonstrar fraqueza é quase um atestado de fracasso. Despender de tempo para fazer algo até mesmo para um conhecido significa desperdício (de tempo, de dinheiro...) para nós mesmos.

Talvez eu esteja errada - e gostaria muito de estar. Pode ser que a expressão apenas não seja mais usada porque a religião está "fora de moda". Se for assim, que as pessoas possam ajudar as outras sem precisar dessa forma específica de agradecimento. Que apenas um "obrigada", um sorriso, um abraço ou aperto de mão sejam capazes de expressar tudo isso. Mas que não seja desculpa para não enxergarmos o outro e ser solidários, mesmo que em pequenos atos cotidianos, como respeitar filas ou carregar a bolsa de alguém no ônibus.




O (não) direito de escolha

Estava diante de uma decisão. Mais um passo e mudaria meu rumo. Pode soar dramático, mas era apenas uma escolha do melhor jeito de voltar para casa. Ou ficava ali e pegava o ônibus de sempre, encarando a espera e o trânsito - além, é claro, do preço alto da passagem que desencadeou um movimento sem igual na minha nova cidade - ou caminhava para casa. As vantagens da segunda opção eram muitas: garantia de exercício, de rapidez e de gratuidade. A distância era pouca, o tempo favorável e o horário, ainda cedo. Por que, então, eu resistia em decidir por aquela que parecia a melhor opção? Antes fosse pela preguiça, mas não. O que me fazia relutar não era, tampouco, a violência dos assaltos que, infelizmente, são uma realidade em São Paulo. Constatei, triste, que o meu medo residia ironicamente em um fator que era motivo de orgulho e temor ao mesmo tempo: sou mulher. E, como toda mulher, enfrento o medo da violência sexual, dos "perigos" que representam meu corpo e sua suposta fragilidade. Basta qualquer rua mais escura ou se encontrar sozinha diante de um estranho que nos salta aquela palavra perigosa e aterrorizante: estupro.

Luta diária para superar a violência contra a mulher. Imagem deste blog.

Decidi vir a pé, mesmo assim. Não queria me sujeitar a uma limitação pela qual eu passara recentemente a lutar contra, ainda que mentalmente, que era a opressão (qualquer forma dela) da mulher. E, com a confiança de que as coisas estão mudando e que eu deveria contribuir diariamente para essa mudança, vim caminhando pelos quase 4 km que separam trabalho e casa.  É verdade que me sobressaltei nas ruas mais desertas, nos trechos mais escuros e que passei por um episódio que pôs a prova minha coragem e paciência. Quase chegando em casa, em uma avenida mais movimentada e bem iluminada, avisto um grupinho de meninos arruaceiros alguns quarteirões a frente. Caminhavam devagar fazendo barulho e rindo alto. Alguns deles olharam para trás e, ao me ver, deram sorrisinhos cínicos e intimidadores, além de soltar alguns gracejos. Queriam marcar seu "poder masculino", senti. Aí, me assaltou a dúvida: continuo andando no meu ritmo e os alcanço, diminuo o passo ou mudo de calçada? "Não, hoje é um dia de mostrar minha força", pensei. Apressei e tornei mais firmes meus passos. Passei bem pelo meio deles com a expressão séria e determinada e, para minha surpresa, pareci os intimidar, já que adotaram uma postura bem menos agressiva. Nem olhares me dirigiram.

Caminhei mais um pouco e sorri, satisfeita, daquela pequena vitória particular. Parece bobo, parece pouco, mas para mim foi muito. Mesmo morando na maior cidade do país, onde a diversidade de pessoas parece conduzir a um pensamento mais aberto, mais tolerante, ainda enfrentamos diariamente questões que nos mostram a necessidade de lutar pela igualdade, pelo controle e liberdade do nosso corpo e jeito de agir. Decidi que não quero ser escrava dessa condição "feminina". Quero fazer dela minha força. Sei que essa foi uma conquista recente, e não digo para a humanidade, mas para mim mesma. A luta contra preconceitos e posturas machistas começa internamente. Agora sei que ainda há muito que preciso mudar, mas isso é assunto para outro post...