Estava sentada impaciente, quase derretendo de calor na
pequena sala lotada de mulheres, já com preguiça daquele ritual de fazer unhas,
que tomava um tempo gigante. Quem foi a desocupada que inventou isso mesmo? A calma
da senhora sentada à minha frente, tirando lentamente as cutículas e
esmaltando, era quase desesperadora para minha pressa de retornar ao trabalho. Os
pés balançando eram a síntese de toda minha agitação. Foi quando ela disse,
baixinho, as palavras que captaram minha atenção e me devolveram toda a
paciência do mundo, além de um sorriso e vários pensamentos.
“Quando saio daqui à noite, ainda vou estudar. Estou
concluindo os estudos. Tinha só até o segundo ano do primário, mas agora que
voltei, gostei e não quero parar mais”, ela me disse, meio tímida. Pronto, eu já
era toda ouvidos e empatia. Mas o mais surpreendente veio depois.
“Antes, eu ouvia falar de ditadura, mas não sabia o que era.
Tinha vergonha de perguntar. Aliás, tinha vergonha de conversar com as pessoas.
Se falava que era diplomado, então, eu travava. Aí, uns dias atrás, aprendi na
aula o que era ditadura. E chorei. Eu vivi a ditadura, mas não sabia o que era.
Às vezes andávamos na rua, e vinha a guarda montada batendo nas pessoas. Minha
mãe dizia ‘não olha para trás’. E eu seguia, sem entender o que era aquilo. Outras
vezes, a gente ouvia música no rádio e meus irmãos diziam: ‘tira daí, que essa
música é coisa ruim’. E eu trocava de estação, sem saber que na verdade aquelas
vozes eram de heróis que queriam libertar o Brasil. Mas agora eu sei. E foi por
isso que chorei.”
Depois disso tudo, só posso dizer: obrigada pela aula de
gentileza e de vida! Que a gente se lembre de valorizar o conhecimento, a
educação e nossa história. Que a gente lembre que nunca é tarde e sempre é
tempo para mudar, aprender ou se emocionar. Voltei a passos lentos e leves, com
olhos muito mais atentos e um coração mole.