terça-feira, 12 de novembro de 2013

Aula de história

Estava sentada impaciente, quase derretendo de calor na pequena sala lotada de mulheres, já com preguiça daquele ritual de fazer unhas, que tomava um tempo gigante. Quem foi a desocupada que inventou isso mesmo? A calma da senhora sentada à minha frente, tirando lentamente as cutículas e esmaltando, era quase desesperadora para minha pressa de retornar ao trabalho. Os pés balançando eram a síntese de toda minha agitação. Foi quando ela disse, baixinho, as palavras que captaram minha atenção e me devolveram toda a paciência do mundo, além de um sorriso e vários pensamentos.

“Quando saio daqui à noite, ainda vou estudar. Estou concluindo os estudos. Tinha só até o segundo ano do primário, mas agora que voltei, gostei e não quero parar mais”, ela me disse, meio tímida. Pronto, eu já era toda ouvidos e empatia. Mas o mais surpreendente veio depois.


Foto tirada deste link.
“Antes, eu ouvia falar de ditadura, mas não sabia o que era. Tinha vergonha de perguntar. Aliás, tinha vergonha de conversar com as pessoas. Se falava que era diplomado, então, eu travava. Aí, uns dias atrás, aprendi na aula o que era ditadura. E chorei. Eu vivi a ditadura, mas não sabia o que era. Às vezes andávamos na rua, e vinha a guarda montada batendo nas pessoas. Minha mãe dizia ‘não olha para trás’. E eu seguia, sem entender o que era aquilo. Outras vezes, a gente ouvia música no rádio e meus irmãos diziam: ‘tira daí, que essa música é coisa ruim’. E eu trocava de estação, sem saber que na verdade aquelas vozes eram de heróis que queriam libertar o Brasil. Mas agora eu sei. E foi por isso que chorei.”

Depois disso tudo, só posso dizer: obrigada pela aula de gentileza e de vida! Que a gente se lembre de valorizar o conhecimento, a educação e nossa história. Que a gente lembre que nunca é tarde e sempre é tempo para mudar, aprender ou se emocionar. Voltei a passos lentos e leves, com olhos muito mais atentos e um coração mole. 

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